Em Saariselkä, no círculo polar ártico

Saariselkä fica no círculo polar ártico mas é acessível. Em tempo e dinheiro.
É um deslumbramento para os sentidos.

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Um dia vi uma fotografia de uma mota de neve, no meio de um espaço natural, todo branco, e disse para mim mesmo: tenho de ir aí.
Foi o ponto de partida para descobrir, na Lapónia finlandesa, um lugar de uma beleza singular:  Saariselkä.

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Estive indeciso com Rovaniemi,  mas depressa se esfumaram as dúvidas.
Saariselkä tinha menos pressão turística, mais natureza, é mais a norte (já no círculo polar ártico) e um ambiente muito mais relaxante.

finnair
Finnair

Fui por Helsínquia e depois num voo da Finnair até ao aeroporto de Ivalo.
Abriu-se a porta do avião e percebeu-se, de imediato, a mudança de ambiente.
Mudança física, cultural e social: frio, neve, pessoas de pele mais escura e mais baixas, algumas falavam um dialeto ou com um sotaque muito difícil de escrutinar.

Palopaa
Palopaa

O primeiro deslumbramento foi no caminho de carro para Saariselkä.
O motorista conduzia rápido, numa estrada coberta de neve e filas laterais de árvores insistiam em tapar o sol.
Era a E75, uma estrada mítica para os finlandeses, porque corta o país de norte a sul e atravessa a Lapónia.

Tunturi Hotel
Tunturi Hotel

Ficámos no Tunturi Hotel que se localiza numa encosta muito próxima de uma das entradas do Parque Nacional Urho.

O hotel tinha uma estrutura central grande, onde funcionava a receção, salas de reuniões e o restaurante com um notável pequeno-almoço.
Não esqueci o doce de frutos vermelhos e as papas de aveia (porridge) com frutos, que aqueciam o corpo para se enfrentar o frio. Tínhamos a expetativa de um dia ativo e o pequeno-almoço fazia parte dos preparativos.

O parque de estacionamento do hotel era grande e estava equipado com fontes de energia para descongelar a neve que se acumulava nos para-brisas do carro. Os apartamentos, instalações vulgares, de estilo nórdico.
O mais relevante é que no nosso bloco de apartamentos funcionava uma sauna, o que se revelou excelente.
Outra experiência singular: acordar e ver, pelo meio das persianas, o brilho do sol na neve que cobria a montanha.

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Pista de esqui

É nesta montanha que fica uma pista de esqui e se fazem longas caminhadas por percursos marcados, mesmo até ao cume, onde tudo se transforma.
Lá no alto, passamos para uma zona árida, vegetação rasteira e os poucos arbustos ficam adornados com neve e são livres de se mascararem, conforme dita a natureza e a nossa imaginação.
O efeito da neve e do gelo é muito particular, os ramos parecem envolvidos em renda ou filigrana.

saariselka
Saariselka

O efeito é ainda mais vistoso porque o horizonte é de matiz azul metálico, difuso, onde não se distingue a linha entre o céu e a montanha.
Escusado acrescentar que a temperatura é muito mais baixa e o vento gélido… Até a respiração deixa um rasto, igualmente de renda muito fina.
O caminho de subida e o topo da montanha foi um “exclusivo” nosso. Cruzámo-nos com poucas pessoas – apenas à partida, na parte plana, e já na descida de regresso, quando inadvertidamente entrámos na estreita pista de esqui e deparámos com um esquiador, também ele solitário na penumbra que já caía…

saariselka
Saariselkä

O acesso a esta zona foi feito com sol. Seguimos percursos e marcações e andámos a bom ritmo, sem dificuldade. Não é necessário ser-se atleta, mas também não se aconselha a quem tiver dificuldades em longas caminhadas ou subidas. Para estes, há percursos mais planos e de menor exigência.
A maior parte do equipamento para caminhar na neve foi alugado.

site7_caminhada_sol6Bater com o stick numa árvore e chover neve, admirar a beleza do sol a espreitar pelo meio das árvores e a provocar um jogo de reflexos e sombras na neve, pequenos riachos que exigiam usar “pontes” naturais…
Em alguns lugares tínhamos vista para Saariselkä, noutros casos, para alguns pontos do parque, que estavam referenciados com marcos ou cabines de refúgio.

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Saariselkä

Nesta parte das montanhas foi muito raro encontrarmos animais.
A neve cobria o terreno, pouco dava para ver a vegetação rasteira. Dominava o tom matizado das árvores e das folhas que brilhavam consoante a luz do sol.

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Anoitecer na montanha em Saariselkä

A descida foi num ambiente diferente.
Nesta altura do ano, na Primavera, os dias ainda não eram longos e parte do percurso já foi feito com o pôr do sol e o anoitecer. Não foi muito difícil porque, na última parte da descida, seguimos próximo da pista dos esquiadores.

No final, já se sentia o cansaço do esforço físico, mas este é um percurso que todos que não tiverem limitações podem fazer e, além disso, o cansaço resolve-se bem com uma ida à sauna.

A entrada do parque, próximo do nosso hotel, era também um ponto de passagem para as ruas com restaurantes.

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Temperatura em Saariselka

Por isso, muitas vezes fomos vendo o registo da temperatura – sempre negativa, claro – e pessoas a surgirem no meio da subida, com ar calmo, relaxado.
Ao contrário, na partida, pareciam inquietas. Quando experimentavam os equipamentos e se preparavam para descer e iniciar a caminhada no parque, habitualmente sorriam apreensivas….

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Entrada no parque em Saariselkä

É curioso que poucos passeavam nas ruas de Saariselkä. Alguns seguiam de carro, mas pouca gente andava a pé. Onde o movimento era maior, era em Siula.
Ao final do dia, o ambiente mudava um pouco e já se viam pessoas a passear, sobretudo nas ruas dos restaurantes.

Hotel Holiday Club
Hotel Holiday Club

Na rua principal estava um hotel muito frequentado, o Holiday Club.
A piscina, enorme, funcionava como um espaço de recreio para crianças (Saariselkä  tem muitas estruturas para famílias). Muito barulhento. Preferia a minha sauna.

Depois desta rua, há uma pequena encosta, com habitações cuidadas e anexos ajardinados em frente. Aqui regressava o sossego.

Siula
Siula

Talvez a rua mais extensa fosse a que dava acesso à Siula e ao parque de campismo.
Vimos os locais a limparem os acessos às casas, a trabalharem com pequenas máquinas, para agricultura ou corte de madeira. Uma rotina aparentemente sem stress.
À noite tínhamos a expectativa de ver uma aurora boreal, mas não tivemos sorte. Parece ter havido uma mas, na altura, estávamos numa zona com iluminação pública e não demos por nada…
Havia programas para quase toda a noite, para locais onde era propício assistir a auroras boreais. Um outro programa era pernoitar num aldeamento de cabanas de gelo.

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Motas de neve

Uma outra jornada aliciante é andar nas motas de neve, o ponto promocional que serviu de anzol para a minha vinda à Lapónia finlandesa.
Foi um dia inteiro.
Primeiro a papelada de seguros, termos de responsabilidade… depois escolher os tamanhos do equipamento e, por último, algumas instruções sobre como conduzir a mota, cuidados a ter com a neve e o significado da sinalética do guia.
Pouco depois, toca a andar que se faz tarde!.
Por regra, em cada mota, seguiam duas pessoas, um casal, e quem conduzia era o homem. Não fugi à regra.
O grupo era constituído por cerca de meia dúzia de motas.
Uma beleza!

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Pontos de passagem das motas

A sensação de conduzir a mota na neve era fascinante.
Quanto maior a velocidade, menos se sentia a trepidação provocada pelas oscilações do terreno.
Parece que o problema era para quem seguia atrás, que tinha de se segurar com toda a força, para evitar que fosse projetada quando do impato numa superfície irregular. E havia muitas. Pequenos blocos de neve, zonas de riachos, declives naturais…
Uma outra preocupação era evitar que a mota deslizasse por trechos altos, irregulares, porque, depois, não era fácil o controlo.
Foi o que sucedeu com um casal que seguia ao nosso lado. Fez um desvio, a mota entrou numa zona com camadas altas  e irregulares de neve e foi embater contra o tronco de uma árvore. Desacelerou, desacelerou… mas não conseguiu evitar.
Nada de mais, porque a mota tem uma proteção lateral. Este foi o único incidente.
O resto foi espetacular.

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Renas próximo de Saariselkä

A começar pela observação de um grupo de renas, não muito longe de Saariselkä.
O número era ainda grande.
Pelo que nos explicaram, as renas estão marcadas e os donos facilmente as identificam. Estivemos alguns minutos em silêncio, a observar. Elas sabiam que nós estávamos ali, afastaram-se um pouco e, mais tarde, revelaram-se indiferentes à nossa presença. Estavam mais concentradas nos frutos e na rama das árvores.

Passámos o resto da manhã a fazer longos  percursos.
O guia olhava para trás, para perceber se estava tudo bem, ou a fazer uma marcha mais lenta, para não perdermos de vista os mais atrasados.
No início eu estava atento aos sinais do guia mas, com a rotina, os olhos relaxaram e focaram-se na beleza do espaço natural.

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abrigo

O almoço improvisado foi num abrigo no parque.
Há vários, cumprem a função original e são também estruturas para apoio aos turistas. Num caso ou noutro, há rituais a cumprir. Além da limpeza, tem de se zelar pela eficácia do abrigo, designadamente, lenha no interior para quem vier de seguida.

sessão fotográfica junto ao abrigo
Sessão fotográfica junto ao abrigo

As motas ficaram à beira da casa de madeira e o guia levou enchidos e pão. Foi o almoço, com os enchidos assados na lareira. No decorrer da nossa refeição apareceu mais um casal e um homem solitário.

Palopaa
Palopaa

Deu para descansar e recuperar energia porque a viagem seguinte foi para o topo de uma montanha. Fomos até Palopaa.
Notava-se bem o frio. Até a respiração parecia congelar. O incómodo da baixa temperatura era superado pelo encanto do cenário.

restaurante em Palopaa
Restaurante em Palopaa

Uma névoa azul entrecortada por fiapos laranja, uma panorâmica de 360º, pequenos arbustos decorados com neve e com formas difíceis de imaginar.
Aqui, a neve era mais espessa e mais branca, o que acentuava o contraste com o azul metálico.

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Palopaa

Apetecia ficar,  caso a tarde se prolongasse, mais um pouco.
Próximo do cume da montanha havia uma longa encosta com um restaurante que estava aberto apenas nos meses mais quentes.

Saariselkä é também um roteiro para se descobrir a cultura Sami.
Encontram-se traços identitários deste povo, logo a começar na fisionomia e na pele mais escura, além da roupa colorida. Em Ivalo percebe-se bem algumas destas caraterísticas, em particular nas áreas de serviços e comerciais onde vão os agricultores que se deslocam à cidade.

A gastronomia também tem pratos típicos – provei rena e não apreciei muito, mais até por pena do animal. Em Saariselkä havia um restaurante com pratos tradicionais, um espaço todo decorado de madeira.

Parque de campismo em Saariselka
Parque de campismo em Saariselka

Recomendações:
– ter cuidado com sol e frio.
– ter cuidado com o calçado, mesmo até ao último segundo. Não foi o meu caso: usei botas comuns no check-out, que derraparam quando transportava as malas para o carro que nos levou ao aeroporto, e ia estragando tudo.
– ter em conta as indicações de segurança do parque.
– não é dispendioso alugar materiais. Pode também comprar. Eu tive de comprar umas calças de neve porque me esqueci das minhas quando fiz a mala. O preço na Siula não foi especulativo.
– genericamente os locais falam bem inglês, nomeadamente as forças policiais e de segurança.

Ver
de camioneta até Ivalo

Finlândia – introdução

Galeria de fotos

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