Buenos e bonitos Aires

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Quando ando por algumas localidades costumo fazer a seguinte pergunta: gostarias de viver aqui? Sim, não me importaria de ficar uns tempos em Buenos Aires.
A cidade tem vida, tanta que se prolonga por toda a noite.

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Sentem-se as particularidades da comunidade portenha, com forte marcas culturais e o prazer de viver.
Há uma grande diferença entre ricos e pobres, há o stress do formigueiro como em qualquer centro urbano… mas também há cor, música, arquitectura, gastronomia e…futebol, claro.

Buenos Aires
Buenos Aires

Buenos Aires tem um ponto comum com os grandes centros urbanos da América do Sul: a insegurança, o que originou uma das maiores frustrações – não poder andar com a máquina fotográfica.
Nas poucas vezes que andou no meu punho fui avisado de que era desaconselhável, até por seguranças.

Buenos Aires
Buenos Aires

A estratégia dos longos passeios a pé para fotografar teve de ser complementada com andar de carro para evitar o condicionamento da insegurança.
Uma das opções foi recorrer ao Buenos Aires Bus.
O bilhete é de 24h (mais caro para turistas e mais ainda para países fora do Mercosul, esta é uma prática corrente na Argentina e no Chile)

Buenos Aires
Buenos Aires

O circuito  completo dura mais de duas horas e abrange alguns dos bairros mais interessantes de Buenos Aires.
A compra do bilhete foi numa loja perto da Catedral e foi-nos oferecida uma garrafa de vinho, que tivemos a sorte de poder deixar no hotel. Vimos alguns turistas a fazer o percurso com a garrafa e com o sobe e desce não é nada prático.
Também útil para deslocações no interior da cidade é o metro.
Com as seis linhas consegue-se facilmente ir a vários locais de interesse e não há grandes enchentes.

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Tortoni

Em Fevereiro, Buenos Aires era uma torreira. Muito calor e muita humidade. O que obrigava ao cumprimento do ritual dos cafés e esplanadas.
Em Buenos Aires foi um prazer. Alguns deles têm história, arquitectura, ambiente acolhedor … e café.
Um dos mais notáveis é o café Tortoni.  Fica na Avenida de Mayo e é muito fácil de encontrar.
Vale a pena a visita e merece a fama devido ao esforço de preservar a história, o ambiente e não afastar quem lá vai tomar um simples café.
Todas as noites na La Bodega há um espectáculo de tango.

café
Café

Em outras ruas na zona histórica é frequente encontrar cafés com as mesmas características e os clientes são quase exclusivamente portenhos.
Com as noites quentes é também frequente ver casais a passear e as paragens dos passeios são em alguns destes cafés.
Outro ponto de encontro é o restaurante ou a cervejaria. Se há futebol é obrigatório.

loja de rua
Loja de rua

Há muitas e famosas pizzerias com uma grande procura para take-away, mas a maioria dos portenhos (com alguma capacidade financeira) gosta de improvisar uma ceia com um chopp e empanadas, e gastronomia argentina, bem conhecida pela parrilla e também pelos vinhos. A oferta é tão vasta que o difícil é escolher.
Quanto aos gelados, a expectativa saiu gorada. Os gelados argentinos têm grande reputação e fizemos alguma degustação em Buenos Aires e o resultado ficou muito aquém do esperado. É vulgar encontrar geladarias, cafés e quiosques de gelados, mesmo em bairros residenciais.
Quem queira rapidez ou refeições mais económicas (além das empanadas) tem ainda vários restaurantes e pontos de venda de fast food.

zona do Obelisco
Zona do Obelisco

Na proximidade do Obelisco encontram-de edifícios de vários andares com fast food. Esta é uma das zonas mais procuradas por turistas e locais. É um ponto de passagem e também de encontro.

Obelisco à noite
Obelisco à noite

À noite, há muita gente a conversar, a passear ou nos cafés e os enormes placards publicitários dão colorido e brilho ao monumento.
O Obelisco é uma excelente referência geográfica para orientação e tem algumas zonas verdes e várias avenidas com interesse comercial, gastronómico e turístico.
Por exemplo, a Avenida Corrientes possui numerosos espaços culturais, em particular teatros e cinemas.
Tem ainda uma oferta muito variada de restaurantes.

Ópera na Avenida Corrientes
Ópera na Avenida Corrientes

De noite, os edifícios estão decorados com néon, uma imitação de Nova Iorque.
Da Corrientes pode-se passar para a Florida, uma avenida pedestre e destinada a compras com enfoque nos turistas. Muita gente a circular, espaços de restauração, comerciais, vendedores ambulantes e angariadores a proporem câmbio de dinheiro.

Na intersecção da Florida com a Córdoba estão as Galerias Pacífico.

cúpula central nas galerias pacifico
Cúpula central nas Galerias Pacífico

Um edifício esplêndido e com duas particularidades: a sua arquitetura e as pinturas na cúpula central (é considerada património histórico nacional) e uma área dedicada a Jorge Luis Borges que residiu na parte norte da Av. Florida.

espaço Jorge Luis Borges
Espaço Jorge Luis Borges

A área dedicada ao escritor argentino tinha várias galerias com trabalhos de jovens artistas plásticos, evocações de J. L. Borges com citações escritas nas paredes e livraria.
Seguindo a Florida, vamos dar à Av. Pres. Roque Saenz, mais conhecida pela designação de Diagonal Norte devido ao seu posicionamento, que rompe com as linhas cruzadas das avenidas.

A Diagonal Norte é uma área mais financeira e muito movimentada. Vai desembocar na Catedral Metropolitana , onde o Papa Francisco foi arcebispo, um dos maiores templos católicos de Buenos Aires.
A Catedral tem uma arquitectura clássica, a frontaria é imponente mas é o interior que mais deslumbra.

túmulo de José San Martin
Túmulo de José San Martin

O túmulo de José San Martin introduz um elemento raro, o de um templo religioso homenagear um militar e político. Dois militares na entrada da ala onde está a estátua ainda torna mais ambíguo o carácter religioso do espaço.

A Catedral  é uma das vias de entrada na Plaza Mayo, a maior praça de Buenos Aires e o centro político da Argentina. Desde a fundação do país até aos dias de hoje.
Os seus dois séculos de história estão aqui registados.
Nos edifícios públicos, nos monumentos, nas ruas que albergaram contestatários, presidentes, militares e revolucionários.

casa rosada
Casa Rosada

Mesmo em frente, temos a Casa Rosada, a sede do poder político que vai desde a fundação da cidade ao presente, o gabinete do Presidente da República do estado federativo.

 Cabildo
Cabildo

Do outro lado da praça encontra-se o Cabildo , que inclui uma varanda de onde se pode ver a Plaza Mayo.
O Cabildo é hoje um espaço museológico e retrata bem a vida dos que passaram por aqui, desde os tempos da fundação de Buenos Aires. O próprio edifício teve várias funções, até serviu como prisão. Historicamente está muito associado às assembleias de representantes locais e à declaração da Revolução de Maio, em 1810, o ponto de partida para a independência.

Plaza Mayo
Plaza Mayo

Quando da nossa visita a praça mantinha o seu estatuto de espaço de intervenção política. Marcavam presença vários partidos e movimentos políticos com faixas, cartazes e pavilhões.

Da Plaza Mayo podemos seguir em frente, através da avenida como mesmo nome.
Não é pedestre mas permite fazer um passeio interessante até ao Congresso, a praça onde funciona o Parlamento e que muitos portenhos tratam por outro nome (são abundantes as desconsiderações pelos dirigentes políticos actuais e antigos, a quem atribuem a responsabilidade pela degradação de um país que lhes merece o maior respeito e orgulho).

praça do Congresso
Praça do Congresso

A praça do Congresso tem uma zona verde na parte central e é muito frequentada durante a noite. É também habitual encontrar pedintes, pessoas que levam ao colo bebés (parecem ter semanas! com um calor insuportável) e que são usados para sensibilizar o coração e a carteira dos transeuntes.

É na Av. Mayo que está localizado o Café Tortoni e encontramos outros edifícios históricos com traços da arquitetura europeia e que foram pontos de passagem ou de exibição de trabalhos de inúmeras celebridades. Hotéis, teatros, redacções de jornais, palácios, cafés…
De dia a avenida é muito frequentada, essencialmente nas proximidades da Plaza Mayo, mas durante a noite o movimento é mais nas proximidades da Av. 9 de Julho, a principal avenida de Buenos Aires. Num instante regressamos ao Obelisco.

teatro Colón
Teatro Colón

Próximo da praça do Obelisco, podemos aceder a um outro ponto de interesse de Buenos Aires: o teatro Colón. A não perder. Uma das melhores salas de ópera em todo o mundo, em particular na valência acústica.

Há visitas guiadas que ajudam a perceber o enquadramento histórico, as valências e o motivo porque foi ponto de passagem das melhores companhias e cantores de ópera, teve fantásticos momentos de glória e também de decadência, que foram superados em 2010 com a revitalização e reabertura do teatro.
Hoje é uma referência da cidade e do país.

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Colón

O auditório principal tem mais de 2000 lugares sentados, a decoração é elegante e a acústica sensacional.

La Boca
La Boca

Um outro local obrigatório de Buenos Aires é La Boca e o Caminito.
É uma área ambivalente. Localizada próxima do porto, tem uma comunidade e traços associados ao mundo laboral, bairros operários… No entanto, parece apresentar-se como um postal ilustrado para turistas.
Ambivalente também na ocupação do território.

Boca
Boca

Quarteirões industriais são vizinhos de bairros residenciais e pontos turísticos, camiões de transportes de mercadorias cruzam-se com autocarros de operadores de turismo e, no meio do bairro, que os guias consideram inseguro, existe um quarteirão – onde fica o Caminito  e onde reaparecem as máquinas fotográficas.

Caminito
Caminito

É um percurso interessante. Percebe-se que é mais para turista porque a rua é um museu. Permite, no entanto, uma visão mais empírica de um bairro e de uma comunidade com origens europeias.
As cores vivas das paredes, os murais, a sátira e o humor, os materiais das casas de dois pisos, as casas de tango e o alinhamento irregular das ruas exprimem uma paixão que é mais contagiante aqui.

Caminito
Caminito

O lugar é seguro, há muitos seguranças e também há espaços para compras e restauração.
É igualmente interessante sair do “circuito” e calcorrear algumas ruas limítrofes, como é o caso da Garibaldi que está separada por uma linha férrea onde, antigamente, corria um elétrico.

La Bombonera
La Bombonera

Não está longe o La Bombonera, o  mítico estádio do Boca Juniors que tem sempre muitos admiradores de Diego Maradona.

A fronteira contrária é o Rio Matanza que faz aqui uma curva longa e se espraia por dezenas de metros.
Este cais começou por se chamar Vuelta de Los Tachos e actualmente é conhecido por Vuelta de Rocha. Tem uma vista magnifica para a ponte Nicolás Avellaneda, considerada património nacional.

Vuelta de Rocha
Vuelta de Rocha

Na tarde em que aqui estivemos fazia imenso calor, havia poucas sombras e a água do rio estava coberta de algas. Luz intensa, um horizonte de prata e em frente uma praia verde!

Na parte norte da cidade é obrigatório o percurso ao longo da Av. Del Libertador, desde o Retiro até ao Barrio Chino. Não é aconselhável fazer a pé, é muito extenso e com calor é de derreter. O que vale é que há muitos parques e zonas verde, onde os locais aproveitam para descansar, comer, namorar, correr…

Floralis
Floralis

Esta zona tem também museus, universidades, o Planetário e propriedades extensas, da elite, como é o caso do  clube de golfe (na parte de trás, junto ao mar, fica o aeroporto Jorge Newbery). Também neste percurso destaca-se a Floralis generica, enorme escultura metálica, uma flor que fecha as pétalas durante a noite.
Parte do percurso passa por zonas residenciais, de classe média/alta, e não são propriamente os lugares mais interessantes para se gastar muito tempo em visitas.
O ponto de partida, a Torre Monumental (ou Torre dos Ingleses) com os seus 60 metros de altura, marca a zona do Retiro e a extensa praça rosada serve de referência para quem percorre este bairro a pé.

De seguida é a Recoleta. Um dos lugares de maior destaque deste bairro é o cemitério. Foi construído na antiga horta dos monges recoletos (que dá origem ao nome do bairro) e sobressai pela arquitectura e pelos mausoléus de figuras argentinas, entre elas, Eva Perón.

Basilica
Basilica

Muito próximo do cemitério está a Basílica Nuestra Señora del Pilar. Foi inaugurada em 1732 e é o segundo templo mais antigo de Buenos Aires. Tem um notável altar.
Com uma elevada torre, paredes brancas e a sua posição de relevo, no alto da encosta e na enorme e florida praça Intendente Alvear, a igreja contribui decisivamente para a beleza do lugar.

Recoleta
Praça Intendente Alvear

Há muitos candeeiros ao longo da encosta e a luminosidade ao final do dia confere maior destaque à praça. Contíguo à Basílica está o Centro Cultura Recoleta, uma das mais importantes instituições culturais portenhas, com espaços e funções polivalentes – artes plásticas, visuais, teatro, cinema, formação, investigação…

O edifício foi classificado monumento nacional e teve a sua origem como asilo.
Devido a esta característica, é interessante a forma como está organizado e o contexto das exposições. Percorrem-se longos corredores onde os antigos dormitórios e salas de tratamento são hoje auditórios e espaços com luz muito difusa, resultante da arquitectura do asilo.
Das traseiras do Centro Cultural há uma vista interessante para  o Museu de Belas Artes e para a Faculdade de Direito.
Neste percurso até ao Bairro Chinês há mais lugares de interesse mas há dois obrigatórios: o Jardim Japonês e o MALBA,  Museu de Arte Latino Americana de Buenos Aires.
O Jardim Japonês está inserido numa ampla zona verde no bairro de Palermo e inclui o Jardim Botânico e o Ecoparque.
É uma obra da comunidade japonesa e é gerido pela Fundación Cultural Argentino Japonesa. O espaço é muito harmonioso e além do jardim, alberga um edifício com actividades culturais e também um restaurante. O acesso é pago.

MALBA
MALBA

Quase ao lado está o MALBA, uma construção moderna, com fachada clara e linhas geométricas, que facilmente se destaca. No interior, a enorme parede de vidro dá  profundidade ao espaço.
O MALBA visa divulgar a arte latino-americana e muitas das exposições centram-se em trabalhos e autores modernos. A colecção permanente, de Eduardo F. Costantini, é  dedicada às artes plásticas do séc. XX,  e espelha as principais correntes, com particular destaque para o modernismo.

Quando da nossa visita estavam também em exposição vários trabalhos de Francis Alys dedicados a temas como a emigração, as relações norte/sul e o Iraque e Afeganistão.

A despedida de Buenos Aires foi às 4 da madrugada, num táxi, a caminho do aeroporto.
Muita gente na rua, casais e grupos de jovens caminhavam na calma da noite e diversas padarias e restaurantes ainda estavam abertos. O aeroporto fica próximo do mar e na marginal eram inúmeros os pescadores que aguardavam um puxar de linha…

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