D. Pedro I, o Cruel, em Jarmelo

No alto de Jarmelo, nas traseiras do edifício da antiga Câmara Municipal, D. Inês de Castro está ladeada de duas crianças, ajoelhada e olha para três homens que revelam insensibilidade à sua dor.

Autoria de Rui Miragaia
Autoria de Rui Miragaia

As estátuas em metal são do artista Rui Miragaia e inspiram-se no quadro de Columbano Bordalo Pinheiro intitulado O Drama de Inês de Castro.

 O Drama de Inês de Castro de Columbano Bordalo Pinheiro
O Drama de Inês de Castro de Columbano Bordalo Pinheiro

site_jarmelo_3450O conjunto escultórico é uma iniciativa da Associação Cultural e Desportiva e dá corpo à lenda, à ira de D. Pedro I que mandou destruir a vila de Jarmelo porque um dos executantes do assassínio de D. Inês era daqui. site_jarmelo_3407Pêro Coelho fugiu para Espanha mas foi devolvido ao reino e D. Pedro mandou extrair o seu coração quando foi condenado à morte.

Percebe-se, assim, porque foi atribuído o cognome de “Cruel” a D. Pedro I. A razia da aldeia foi outra vingança.
Casa da Câmara que funciona como museuNa verdade, além da antiga casa da Câmara, que agora funciona como museu, site_jarmelo_hdrsó há um edifício da Junta de Freguesia de Jarmelo de S. Pedro que é uma construção contemporânea, duas igrejas e a torre da vila com os sinos. site_jarmelo_ruinas_3563Das outras construções encontramos apenas ruínas. Pequenas muros e estruturas de pedra que se ocupam outra zona do monte. Mas não foi D, Pedro I que as mandou destruir. site_jarmelo_geodesico_3573Tiago Ramos é arqueólogo e membro da Junta de Freguesia acrescenta que a lenda, que foi registada no século XVIII, é o que diz mas as investigações revelam um caminho bem diferente. O próprio D. Pedro I confirmou a doação de Jarmelo a uma família.
site_jarmelo_ruinas_3561Os vários trabalhos arqueológicos realizados no castro revelam vestígios anteriores de presença humana, antes da época medieval, mas também construções e alterações dos terrenos que vão, pelo menos, até ao século XVII, algumas centenas de anos depois da alegada destruição.
Objetos em exposição no museuSerão outras as histórias que podem explicar o abandono do alto de Jarmelo. Tiago Ramos aponta , por exemplo, que “na época de D. Pedro e D. Fenando a vila teria sofrido consequências das guerras com Castela e da Peste Negra. site_jarmelo_3398Nesta fase regista-se apenas uma situação de declínio. Jarmelo continua como sede de concelho até à Reforma Administrativa do século XIX em que é divido entre os concelhos de Pinhel e da Guarda. site_jarmelo_3395Nesta altura Jarmelo já não é habitado conforme testemunham as “memórias paroquiais” em meados do século XVIII que dizem Jarmelo ser uma vila deserta, só existindo o edifício da Câmara e duas casas que serviam de abrigo ao juiz do concelho.”
site_jarmelo_ines_3405O nosso Romeu e Julieta, o drama do amor impossível, entrou no imaginário popular e, não muito longe, na Aldeia Velha, no Sabugal, também há uma lenda igual para explicar o abandono da povoação. site_jarmelo_2_hdrEm Jarmelo a lenda também se sobrepõe à história, embora, Tiago Ramos admita existir um fio da meada que começa na corte do Rei. “O donatário de Jarmelo, Afonso Sanches, era também senhor do castelo de Albuquerque , em Espanha, para onde foi desterrada D. Inês de forma a separar-se de D. Pedro.”
O amor e o ódio conjugam-se nesta lenda que atrai muitos visitantes a Jarmelo. “Por um lado, para verem o conjunto escultórico. Cruzeiro e marco geoidésicoPor outro lado, pelo enquadramento paisagístico porque, como é muito alto, tem uma excelente visibilidade para o planalto beirão e consegue-se ver a Guarda, Espanha, Serra das Mesas, Pinhel, Castelo Rodrigo e Trancoso.

Vista do marco geodésico
Vista do marco geodésico

A visibilidade é o que explica a colocação do marco geodésico de primeira ordem” que está mesmo ao lado da área repleta de ruínas.
site_jarmelo_3400Há um percurso pedestre que termina na antiga vila de Jarmelo. Nessas caminhadas, se for comunicado o interesse, podem organizar uma reconstituição histórica conforme assegura António Santos, presidente da Junta de Freguesia.

Outra igreja no alto de Jarmelo
Outra igreja no alto de Jarmelo

Outra oportunidade é quando se realiza a Feira Concurso do Jarmelo onde são premiados os melhores exemplares de uma raça bovina autóctone – a Vaca Jarmelista.

Vaca Jarmelista
Vaca Jarmelista

Na descrição de António santo, “é uma vaca amarela, corpulenta e com uma franja muito grande, o que a distingue das outras raças. A carne é mais suculenta, mais feita, mais tenra. É diferente”)
Todos os anos, no primeiro fim de semana de Junho, organizam uma feira concurso. O objetivo é incentivar a continuidade desta raça que já esteve quase extinta, apenas com nove exemplares, conseguiu recuperar para cerca de 300 adultos que, espera-se, consigam preservar a raça.
Tiago RamosD. Pedro I, o Cruel, em Jarmelo faz parte do programa da Antena1, Vou Ali e Já Venho, e pode ouvir aqui.

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