Maldivas por acaso

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Estive duas vezes nas Maldivas e ambas de improviso.
A primeira foi numa escala da Singapura Airlines, talvez em 1987.
Não fazia a mais pequena ideia de que parava em Malé.
Fantástica a experiência de aterrar numa ilha em que se vê apenas mar de um lado e doutro do avião.

Maldivas
Maldivas

Pouco antes da aterragem e depois da descolagem, deu para ver pequenas ilhas a quebrar o azul marinho do Oceano e uma tonalidade muito clara da água ao aproximar-se da terra.

O arquipélago é constituído por 1.190 ilhas com corais, das quais 200 não são habitadas.
Fiquei fascinado e lamentei desconhecer a existência da escala. Se soubesse, ficaria pelas Maldivas alguns dias.

A segunda vez foi também uma passagem de improviso.
Devido à forte instabilidade política que se vivia no Sri Lanka, deixámos Colombo a caminho de Malé. O bilhete de avião, ida e volta, custou 120$USD.
Depois de um dia passado no aeroporto de Colombo, aterrámos em Malé às 23h.
A viagem demorou duas horas e meia.
Pela “quinquagésima” vez tivemos de abrir as malas. Os serviços do aeroporto fecharam de imediato.
No exterior, muitos locais ofereciam os seus serviços aos turistas. Falavam inglês e davam cartões.
O aeroporto ficava na ilha de Hulhule. Para se conseguir alojamento tinha de se ir para Malé (hoje já existe alojamento na ilha e também têm hidroaviões).
Ficava noutra ilha. 
O transporte era em barcos rudimentares, como também o cais, que não era nada eficiente. Para se entrar nas embarcações era necessário alguma perícia.

Nada estava programado. Nem consulta de prévia de informação, nem leituras de guias.
Tarde, sem qualquer ideia e com o aeroporto a fechar, fomos obrigados a escolher o alojamento com rapidez.

Tallinn Gesthouse
Tallinn Gesthouse

A escolha foi a Tallinn Guest House.
Não porque o cartão fosse o mais bonito, nem pelo o preço ou as explicações. Nada disso.
Apenas porque o homem tinha um aspecto razoável em comparação com os restantes. 
Acertámos. 
O dono da estalagem era muito simpático e prestável.
A Tallinn, embora sem grandes aprumos ou luxos, era aceitável e asseada.
A casa ficava numa rua estreita. Depois, verificámos que quase todas as ruas de Malé eram estreitas e sinuosas.
O acesso ao quarto era pelo quintal.

A noite foi agitada. 
Grandes estrondos no sótão e o barulho de algo que se mexia constantemente.
A noite foi quase em branco.
A meio da manhã, quando do pequeno almoço o dono da estalagem explicou-nos. Com uma vontade enorme de rir. Os estrondos eram cocos a cair no telhado. Por causa do vento e da chuvada que fustigou a ilha durante a noite. Quanto ao barulho de algo que se mexia constantemente, devia ser o gato que também não dormiu devido ao barulho…

Nessa mesma noite, ainda mais tarde, chegou à estalagem um turista alemão que visitava as Maldivas pela segunda vez.
Sobre o programa da nossa estadia, o nosso anfitrião deu-nos alguns conselhos. 
Os agentes a contactar, as deslocações…
Mas só depois do almoço porque até lá estava tudo fechado. Era sexta-feira e os habitantes são quase todos islâmicos.

 Para aproveitar a manhã, fomos dar um passeio pela cidade, 
as ruas estavam praticamente desertas. As lojas todas fechadas.

De vez em quando, ouvia-se o chamamento para a oração dos altifalantes da mesquita.
As casas eram de um único piso, quase todas brancas e o comércio rudimentar.
A pé, percorremos o centro da cidade, até ao outro lado de Malé. Um hotel e várias agências de viagens. Tudo fechado.

 Pelo cais regressámos ao centro.
Na avenida principal fica o palácio Mulee-aage, o museu e a mesquita Hukuru Miskiyy. Devido a um golpe de estado, poucas semanas antes, esta zona estava cheia de militares e eram bem visíveis os buracos nas paredes do palácio, do quartel e em alguns muros.
Estes edifícios estavam numa rua de terra batida. Não encontrámos uma única via asfaltada.

Mesquita de Malé
Mesquita de Malé

Os edifícios do palácio e da mesquita eram muito bonitos. Ornamentados, a mesquita com muros de coral.
Faziam um contraste enorme com as ruas cheias de pó.
Devido ao sol que começou a apertar, apanhei um escaldão nos ombros.
Era tempo de almoço mas os restaurantes estavam todos fechados. 
Desistimos e fomos para a estalagem. 
Mais de uma hora depois, nova tentativa no centro de Malé para almoçar. Os restaurantes continuavam encerrados. 
Só no outro extremo, conseguimos finalmente um lugar com as portas abertas. O restaurante do hotel. O prato foi de peixe. Bem confeccionado mas o que estava divinal foi a papaia com uns pingos de limão.  Ainda hoje me lembro do sabor da papaia.

Eram umas quatro da tarde quando finalmente abriram algumas agências de viagens. 
Pouco interessados na nossa presença.
 Só fomos atendidos depois de uma longa espera.
Os preços eram muito caros, os alojamentos mais baratos ficavam nas ilhas mais distantes, mas a diferença de preço era anulada com o custo do transporte.
Muitos dos resorts tinham instalações sanitárias coletivas. Nesta altura, em que o turismo estava a nascer nas Maldivas, eles vendiam apenas a praia, as palmeiras e o mar.
Com o boom do turismo, registou-se uma grande evolução e agora as Maldivas têm mais de duas centenas de resorts em todo o arquipélago.
Desiludidos, decidimos regressar ao Sri Lanka. Talvez a situação política tivesse melhorado.
Nesta sexta não era possível comprar bilhete. O aeroporto e o escritório da Air Lanka também estavam fechados (hoje há muitas mais companhias aéreas que fazem escala nas Maldivas).
Passámos o resto da tarde a conversar com o dono da estalagem. Explicou-nos que os preços nas Maldivas eram superiores aos da região porque tudo era importado e ainda por cima com transporte de barco.
A pesca, alguma indústria de vestuário e o turismo eram as principais receitas do arquipélago. No início deste século a taxa média de crescimento económico tem sido de 10% e o turismo registou um boom.
Por outro lado, havia falta de mão de obra. Recorriam a indianos mas pareciam não gostar muito deles.
Sobre a recente tentativa de golpe de estado, alguns dias antes já havia um rumor e não foi uma grande surpresa. No entanto, segundo nos disse, a população não estava empenhada em mudar de regime ou sistema político (a grande mudança teve lugar com a crise de 2011/2012). Havia problemas mas não queriam entrar em conflitos, muito menos em conflitos internos.
Interrogou-nos sobre Portugal, que era bem conceituado nas Maldivas mas de que se deixou de falar. Fomos os primeiros ocidentais a chegar às Maldivas (em 1558 até 1573) e, contrariamente aos ingleses, o nosso interesse era o comércio, não a posse das terras.
A noite foi passada com mais um passeio em Malé.
Era uma cidade muito pequena. 

Percorremos quase sempre as mesmas ruas. 

Com o anoitecer, muitas pessoas saíram à rua.

Frente ao cais, num pequeno espaço coberto, vendia-se peixe.
A grande maioria dos presentes estava ali apenas para conversar. Não se incomodavam com a presença de máquinas fotográficas. 
Nunca fomos interpelados pelos locais. Olhavam e passavam indiferentes.
Também com o avançar da noite começaram a aparecer turistas. 
Estavam alojados em Malé e passavam o dia em outras ilhas. Eram poucos. 
A maior parte seguia para as ilhas durante alguns dias (essencialmente japoneses, o que também explica os preços) e quando regressavam, iam directamente para o aeroporto.

Malé era mais um local de passagem. Na altura, também não tinha capacidade hoteleira. Hoje há um número muito maior de hotéis e de cadeias internacionais.
O jantar foi num restaurante virado para o mar, no cais, mas foi banal.
No dia seguinte, logo pela manhã, o dono da estalagem comunicou-nos que conseguiu marcar as nossas partidas.
O avião deixou as Maldivas à hora de almoço com destino a Colombo mas antes tivemos de pagar a taxa de aeroporto em dólares. Não aceitavam outra moeda. Nem a local. Esta taxa foi mais tarde englobada na estadia e regressou a partir de 2012,  custava $25USD, mas um tribunal anulou entretanto esta medida.

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