Japão

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Japão – 1993

Durante o dia verificava-se um grande frenesim na cidade.
Muitos carros e viadutos contornavam prédios enormes.

Tóquio
Tóquio

Muita gente pelas ruas, essencialmente próximo das paragens de metro.
No entanto, em algumas partes, o sossego era quase total. Pequenos parques ou jardins.
À noite era mesmo possível ouvir cigarras.
O maior problema foi a orientação. 
A metrópole é tão grande, e na quase totalidade urbanizada com prédios altos, que facilmente nos perdemos.
Em alguns locais havia zonas de restaurantes e bares, frequentados mais ao final do dia.

Uma noite foi passada num deles. Um pouco escuro, música e um vaivém permanente de pessoas. Isoladas ou em pequenos grupos.
Na verdade, corresponde em muito pouco à recriação feita, muitos anos depois, com a leitura de várias obras de Murakami.
Um dos esforços foi controlar o orçamento porque não eram baratos comparado com o custo de vida numa cidade média europeia.

Tóquio
Tóquio

Outra das noite foi aproveitada para um passeio na agitação nocturna.
Ao final da tarde, tipicamente provincianos, perguntámos a um jovem ocidental onde ficava o centro. Resposta: aqui não há um centro da cidade. Cada parte tem o seu centro. Claro!, foi o nosso comentário.
Fomos de metro até um dos locais mais visitados durante a noite.
A primeira admiração foi como muitas pessoas conseguiam dormitar em pé. Regressavam do trabalho e encostados às paredes do metro iam dormitando.

 É preciso perícia mas, ao mesmo tempo, há a inquietação sobre a qualidade de vida destas pessoas. Casa-trabalho-casa….
O metro serpenteava blocos de edifícios. Mesmo à nossa frente, talvez num terceiro ou quarto andar, muita gente ainda estava nos escritórios.

Um pouco mais à frente vimos pequenas residências.
O comboio passou a poucos metros das varandas e das janelas. Quase que se pode dizer olá ou acenar com um adeus. Não valia a pena, estavam indiferentes pelo hábito.

Ao fim de cerca de meia hora chegámos.
Néon, anúncios gigantes e muitas pessoas na rua. Avenidas largas, de várias cores, consoante os anúncios e lojas e bares abertos. A f
ast food dominava. Discotecas e bares proliferavam.
Em frente da porta de uma dessas discotecas, duas jovens, com roupas ocidentais e mini-mini-saias, entregam panfletos. Atrás, encostado a uma divisória metálica, um rapaz apertava-a contra o seu corpo.

Os passeios estavam cheios de gente. Havia muitos táxis mas o trânsito não era intenso. Algumas das pessoas até aproveitavam a estrada para caminhar.  

A grande maioria, sobretudo os que circulavam em grupo, sabiam bem o destino. Passos determinados. Outros vagabundeavam a olhar para as montras.
Megastores de música e electrónica estavam cheias. Aqui, os neons eram os mais interessantes, mais apelativos.
A quase totalidade dos visitantes eram japoneses. Roupa ocidental (a grande maioria dos homens trajavam um fato) e visual cuidado. Muitos com headphones.

Japão
Japão

O relacionamento foi muito formal.
Em particular nos contactos institucionais, como foi o caso da visita ao Parlamento e ao Palácio do Imperador.
Imensas troca de cartões, protocolo rígido, lugares marcados e muita troca de gentilezas.

Assisti a uma conferência de imprensa com jornalistas japoneses e fiquei com a mesma ideia.
Não há o improviso, a agitação, a insistência da imprensa europeia ou norte-americana.
O interlocutor diz o que quer e acabou.
Sempre fiquei com a esperança de ter sido um acaso para não ficar decepcionado.

A vida urbana era muito diferente do ambiente rural.

Japão
Japão

Em primeiro lugar, uma particularidade bem vincada é a organização do espaço e o cuidado em não deixar lixo. Nas vias públicas, em restaurantes, parques, acessos a lugares públicos, jardins privados… nem um vestígio de lixo.
Locais por onde passam muitas pessoas, umas aguardam a chegada de transporte público, mas nos quais pouco ou nada existe a assinalar a passagem de tanta gente. Mais do que isso, a forma tranquila e disciplinada como convivem e ocupam o mesmo território não tem nada a ver com as de outras sociedades.
Por outro lado, a azáfama da cidade não tem qualquer correspondência com o mundo rural.

Japão
Japão

É uma mudança radical. Ambiente calmo, nada de stress, casas de dois pisos, com imensos espaços verdes ou inseridas em campos agrícolas.
Algumas das habitações eram modernas, outras com traços tradicionais, materiais diferentes e pequenos átrios em volta.

Uma passagem do Japão que me ficou na memória foi em Tokushima.
Após uma visita à escola Shin-Machi, foi a evocação de Wenceslau de Moraes.
O tempo estava nublado. Chuva miudinha. Era, de facto, um ambiente que incentivava a meditação.
Um português navegante. Escritor e apaixonado. Talvez do melhor que qualquer diplomacia pode ter. Os japoneses têm por ele uma grande admiração.
Primeiro foi evocado no templo Anjuji. Com incenso e muita admiração. 
Depois, foi a visita ao templo que lhe é dedicado. O templo Choonji.
No mesmo ambiente decorreu a visita a Oita.

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Nagasaki

Depois de passarmos por Osaka e Oita o destino seguinte foi Nagasaki.
Inesquecível. 

Quase todos os passos tinham na minha cabeça a música dos Secos e Molhados, a Rosa de Hiroshima.
A cidade fica envolvida por colinas. Como Lisboa. 
A bomba atómica teve um efeito ainda mais devastador devido a esta configuração da cidade.
O centro ficou quase todo destruído,  resta uma pequena ruína que perdura para a memória da atrocidade humana.
As encostas, com casas de madeira foram depois devastadas.
Do alto de uma dessas colinas cada um de nós fazia o filme de terror.

Nagasaki
Nagasaki

Depois, seguimos em direcção ao centro. Ao parque e ao museu da paz.
Ler e ver é muito diferente de estar no próprio local a sentir o que deverá ter sido o impacto da bomba.
O que por vezes confunde são as imagens que já temos na nossa cabeça e que correspondem ou não com a leitura dos relatos que estão descritos no museu.
Mais do que o ambiente destes locais, a arquitectura, os elementos do cenário ou os objectos evocativos, o que marca é estar no local. Olhar para o céu e imaginar o apocalipse.
Um ambiente pesado.

Nagasaki
Nagasaki

Bem diferente da manhã onde fomos visitar um parque.
Muitos jovens praticavam desporto. 
Acompanhados de alguns adultos, concentravam-se em vários locais e faziam exercícios físicos.
Estava sol e a alegria das crianças nada tinha a ver com a memória da cidade. 
Ainda bem.

A partir daqui a viagem teve um cunho mais histórico.
O navio-escola Sagres estava a fazer uma viagem de circum-navegação e foi o nosso meio de transporte durante dois dias.
No mar do Japão. 
Partida de  Inasayma e chegada a Tanegashima.
O navio é deslumbrante e a sua presença não passou despercebida.

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Sagres

Mais ainda quando os marinheiros sobem aos mastros.  Uma coreografia inesquecível.
Toda a embarcação é de madeira e o espaço interior não é muito grande.
Nos dois dias, deu para esconder o enjoo e fazer exercício físico num jogo com uma bola de trapos.
A maior parte do tempo foi em conversa com a tripulação.
Havia ainda história de não fazermos a mais pequena ideia das normas. 
Quem pode subir e descer escadas… Só sei que tive de pagar uma grade de cervejas que é a multa dos ignorantes. Bom convívio.
A chegada a Tanegashima foi no mesmo sentido da viagem.

Tanegashima
Tanegashima

Uma marca histórica do cruzamento de civilizações. 
Portugal e Japão que se encontraram aqui e cujas excelentes relações se mantêm.

A Sagres voltou a engalanar-se e os anfitriões replicaram rituais dos tempo em que os portugueses chegaram e introduziram a arma de fogo que teve uma enorme influência no Japão.
 
Uma enorme festa que revela a admiração que Tanegashima ainda nutre pelos portugueses.

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