A fantástica Real Fábrica do Gelo

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Os reis e a corte há dois séculos já tinham a resposta, mesmo antes da invenção do frigorífico. Pediam ao neveiro mor e ele tinha o gelo no antigo Martinho da Arcada em Lisboa ou no Café do Gelo, no Rossio.

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Vinha da serra da Lousã ou da Serra de Montejunto da Real Fábrica do Gelo. Pode-se visitar e tem histórias fantásticas.


Conforme conta Carlos Ribeiro que gere a estrutura municipal na Serra de Montejunto, muitas pessoas chegam aqui cheias de curiosidade sobre a forma como se contornava a ausência do frigorífico que só foi inventado no final do século XIX

Um dos poços de gelo em Santo António da Neve ©Jorge Nunes
Um dos poços de gelo em Santo António da Neve ©Jorge Nunes

A responsabilidade cabia ao neveiro mor, Julião Pereira de Castro, que tinha outra fábrica na Serra da Lousã. A de Montejunto é do final do século XVIII e é única a nível mundial porque enquanto as outras fábricas produziam o gelo a partir da neve, aqui era com água que gelava. A fábrica funcionava a partir do final de Setembro, inicio de Outubro e as temperaturas muito baixas transformavam a água em gelo.

Toda a área está repleta de árvores
Toda a área está repleta de árvores

Facilmente percebemos o modo como funcionava quando entramos no meio de uma área que parece um bosque, com muitas árvores e muita sombra para fazer baixar a temperatura. É aqui que começa a surpresa quando se vêm 44 tanques.

Um dos poços está a descoberto
Um dos poços está a descoberto

A água vinha de dois poços, era tirada com uma nora e despejada num tanque com 151 mil litros. Depois enchiam os 44 tanques e o guarda esperava até a água gelar.

Tanques onde a água gelava
Tanques onde a água gelava

Na maior parte dos casos era durante a noite e seguia depois a cavalo à aldeia de Pragança, que fica no sopé da serra. Com uma corneta acordava as pessoas para irem à fábrica tirar o gelo e transportá-lo às costas para uma casa que tem três silos onde se fazia o armazenamento, conservação e expedição do gelo. Dois dos silos serviam para conservar o gelo.

Poço com 10 metros de profundidade
Poço com 10 metros de profundidade

Na visita podemos ver como um deles é muito grande. Tem 10 metros de profundidade e sete de largura. Dois a três homens iniciavam então o trabalho de conservação do gelo. Andavam com maços e compactavam-no até formar um bloco.

Entrada para a casa dos silos com uma imagem de Santo António do qual o neveiro mor era um grande devoto
Entrada para a casa dos silos com uma imagem de Santo António do qual o neveiro mor era um grande devoto

O gelo ficava alguns meses no silo e garantia-se a sua conservação porque é uma zona muito fria, sombria e virada a norte. Foi construída um bloco de pedras em volta da casa para evitar humidade e nos silos estão pedras no chão e drenos para diminuir o risco de descongelamento.

Janela para a saída do ar da respiração dos trabalhadores
Janela para a saída do ar da respiração dos trabalhadores

O cuidado em termos de engenharia vai ao pormenor de haver uma janela pequena, no topo do silo maior, para sair ar quente resultante da respiração dos trabalhadores.

Chegado o Verão iniciava-se o processo de transporte até Lisboa que tinha de ser célere. Os homens partiam e cortavam o gelo. Era embalado em palha e serapilheira e colocado num silo a aguardar o transporte que era feito em três fases.

Alto da serra onde está a Real Fábrica do Gelo
Alto da serra onde está a Real Fábrica do Gelo

Do alto da serra até ao sopé era transportado por burros. Depois em carroças ou carros de bois até à Vala do carregado, na margem do Tejo.

Terreiro do Paço
Terreiro do Paço

Seguia depois em barcas até ao Terreiro do Paço. Este percurso era feito em 12 horas e durante a noite para aproveitar as temperaturas mais baixas.

Martinho da Arcada
Martinho da Arcada

No Terreiro do Paço era levado para a Casa da Neve. Era também propriedade de Julião Pereira de Castro e mais tarde passou a ser o café Martinho da Arcada. Outro café que também tinha a mesma função era o “Café do Gelo” que ainda hoje existe no Rossio.

Informação sobre produção e distribuição de gelo
Informação sobre produção e distribuição de gelo

Na visita à fábrica há ainda informação sobre a forma como o gelo era guardado em Lisboa, o surgimento dos primeiros frigoríficos e a utilização em hospitais.

Forno de cal
Forno de cal

Próximo da casa com os silos está um forno de cal. Foi utilizado inicialmente para a construção das estruturas em pedra e depois para a utilização da cal como desinfectante dos tanques e dos silos, não fosse o Rei saborear um gelado estragado e o neveiro mor corria o risco de ver terminado o seu negócio.

A Real Fábrica do Gelo esteve operacional cerca de um século. O surgimento do frigorífico em 1850 acabou por arruinar o negócio e as instalações ficaram ao abandono. Sofreram uma profunda degradação e o terreno ficou cheio de mato.
Carlos Ribeiro com a chave da Real Fábrica do GeloFoi um grupo de alunos, entre os quais Carlos Ribeiro, que iniciou o processo de recuperação. Formaram um grupo de amigos da Fábrica, desmataram o caminho e o movimento ganhou mais tarde a adesão da Câmara Municipal do Cadaval.
Nos últimos 30 anos foram feitos vários trabalhos de conservação e em 1997 a Real Fábrica do Gelo foi classificada como Monumento Nacional.
As instalações estão abertas todo o ano e realizam-se diariamente quatro visitas guiadas: 10h, 11h, 14 e 15.30h. Aqui tem mais informação.

A fantástica Real Fábrica do Gelo faz parte do podcast semanal da Antena1, Vou Ali e Já Venho, e pode ouvir aqui.
A emissão deste episódio, A fantástica Real Fábrica do Gelo, pode ouvir aqui.

O Vou Ali e Já Venho tem o apoio:
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