O nosso olhar fica fascinado, fixa-se na pedra, nas cores, na textura, na decoração, no encadeado de formas.
O deslumbramento é total quando passamos o desfiladeiro e deparamos com o Tesouro.
Caminhar e descobrir cada uma das novas perspectivas deixa-nos boquiabertos.
Não é preciso qualquer registo físico. É inesquecível na nossa memória.
Petra (a “rocha” ) é uma fantástica obra de engenharia com dois mil anos.
A proeza foi, fundamentalmente, de um povo árabe chamado Nabateus.
Uma tribo que três séculos antes de Cristo dominou esta região, deixando um importante legado na península arábica e fez de Petra a sua capital.
A cidade floresceu devido às rotas de comércio entre a China e o Ocidente, às caravanas de comércio, essencialmente de sedas, especiarias e incenso.

Chegou a ter uma área de 10 km2 e era uma das sociedades mais prósperas desta região.
Em troca de água, alimentos e abrigo cobravam um imposto aos comerciantes.
No séc. I foram conquistados pelos romanos. O império de Roma deixou algumas marcas mas os vestígios mais importantes são dos nabateus.
Este povo tinha grandes conhecimentos de hidráulica. Conseguiu abastecer a cidade através de pequenos canais.
Eram visíveis no Siq, o principal acesso a Petra.

O Siq tem uma extensão superior a um quilómetro.
Foi, para nós, um caminho surpreendente. Logo de início tem a Obelisk Tomb.
Por vezes tem uma largura de seis metros mas em algumas partes mais sinuosas estreita para três metros.
As rochas atingem quase uma centena de metros de altura.

O tom dominante é o vermelho/rosa embora muitas rochas tenham cores mais claras.
A maior parte do caminho foi criado de modo natural. Em alguns lugares foi obra dos nabateus.
De lado, cravado nas rochas e a cerca de um metro de altura, encontrava-se um pequeno canal para transporte de água.
Devido à enorme altura das rochas e às escarpas irregulares, em algumas partes dificilmente se via o céu.

De repente, após se contornar uma das rochas e numa parte estreita, o nosso olhar deslumbra-se com o Tesouro (al-Khazneh).
É provavelmente o mais conhecido dos 800 monumentos de Petra.
Entrou no nosso imaginário no filme Indiana Jones and the Last Crusade.
A fachada helenística com colunas está cravada na rocha. Tem 40 metros de altura e 30 de largura. A pedra é toda cor de rosa e terá sido construído um século antes de Cristo.
O tesouro é um mito. Acreditavam que na cripta, na parte de cima da fachada, estava escondido um tesouro. Na verdade, a construção terá sido apenas um mausoléu de um rei nabateu.
O interior já quebrou a expectativa.
Militares com roupa de gala estavam de guarda mas o interior era vazio. Três câmaras, em níveis diferentes.
Uma delas abaixo do solo e via-se através de uma grade, antes de se entrar.
A parte que fica à entrada é um quadrado. Em cada uma das paredes há uma porta com a frontaria trabalhada em relevo na própria pedra.

O que impressionou mais foi a coloração da rocha. Em vários tons rosa. Como se fossem ondas que ficaram registadas na pedra.
O Tesouro é o ponto de partida (ver mapa). Este local costuma ter muitos turistas a tirar fotografias.
A partir daqui o percurso era mais amplo.
Entrámos na cidade pela Street of Facades.
A via principal que nos leva ao centro de Petra.
À descoberta da cidade de pedra. A cidade rosa.
Ruas, escadas, grutas, palácios, templos, casas… tudo em tom rosa.
Tudo numa textura invulgar.
Petra sofreu dois terramotos destruidores. O pior de todos foi em 551. Muitas habitações foram destruídas. O efeito foi menor nos templos, restando agora cerca de cinco centenas.
Decidimos fazer todo o percurso a pé.
Sentir as pedras, entrar nas grutas, subir as encostas e visitar túmulos construídos no interior das rochas. Em vários patamares. Como se tivessem dois andares. E de múltiplas formas.
Ver a metamorfose das rochas. A cor rosa em pastel que depois se alonga em tons avermelhados. Sentir o ambiente de uma zona árida há dois milénios. Como seria viver aqui? As noites? O comércio de dia?

Após a passagem do Tesouro e dos pequenos de ponto de venda de água, no início da Street of Facades, o monumento que nos captou a atenção foi o teatro.

Também foi escavado nas rochas.
Tem 45 degraus e a lotação deveria atingir seis mil pessoas.
Pouco depois, do outro lado do vale, a vista da encosta é dominada pelos túmulos.
Os templos são mais fáceis de identificar. Na topo da fachada há um relevo em forma de pirâmide. O ponto central mais próximo do céu.

Os maiores mausoléus estão no alto de uma montanha.
Um dos maiores é Urn Tomb.
Uma nave enorme com cores fantásticas. Em tons de amarelo.
Mais tarde foram construídos três arcos, levando a supor que foi transformada numa igreja no ano 447.
Daqui usufruímos de uma vista magnífica para o vale de Petra.
Outro monumento que se destaca é a Corinthian Tomb.
Tem uma fachada parecida com a do Tesouro, com 28 metros de largura e 26 de altura.
O interior tem quatro câmaras, a maior com 13 m2.
Por último, não pela grandeza mas pela sua forma estranha, destaque para a Silk Tomb.
As cores são mais suaves, com variações horizontais e uma pequena porta.
Podia-se descer esta montanha por uma zona onde andavam muitos beduínos. Era uma área que estava a ser alvo de escavações.

Algumas família vendiam objectos, souvenirs, artesanato. Um pouco mais à frente, por outro caminho, alguns levavam os camelos para os seus acampamentos.
Na parte mais baixa do vale, mudámos de ambiente. Deparámos com a Colonnaded Street, o maior legado romano.
Era, na altura, o ponto central de Petra. A zona comercial.
Os vestígios conseguidos pelas escavações são de um caminho romano, com enormes colunas e no final, o que resta dos arcos, a Arcade Gate.
Foi aqui que mudámos da história para a gastronomia, com uma pausa no restaurante para restabelecer energias.
O que se vai seguir promete ser mais cansativo: a caminhada até Al-Deir, o Mosteiro
Tivemos de subir mais de 800 degraus. O número varia consoante o utilizador.
Não eram escadas normais.
Era um caminho com pedras enormes, com degraus profundamente irregulares. Muitos nem eram degraus, apenas pedras soltas. Por vezes escorregava-se. Em alguns locais, o espaço era amplo. Noutras partes, tivemos de atravessar encostas muito estreitas.
Foi um longo e exigente exercício físico.
Proporcional ao deslumbramento.
Água e protector solar é obrigatório. Também tempo. Muito. Para descansar e fruir a paisagem. Raramente encontrámos árvores. A sombra de uma encosta e a brisa que corria eram os locais preferidos para parar.
Com calma, a subida é percurso para uma hora.
O Mosteiro é o monumento que fica mais afastado da porta principal.

Os beduínos ofereceram transporte com burros. Obrigatório dispensar. Os desgraçados dos animais tinham de fazer um esforço enorme e ainda levavam com o chicote quando as forças escasseavam.
O percurso não era rico em monumentos. Eram muito poucos.
O mais interessante foi o ambiente. As cores, a textura das pedras, a imaginação do que seria este caminho nos milénios anteriores. O que levaria as pessoas a subir e a descer esta montanha.

Neste percurso, em muitos locais, encontrámos beduínos.
Alguns estavam a vender produtos de joalharia e chá aos turistas. Outros andavam por ali com cabras e burros.
Por vezes, os animais eram colocados em pequenos espaços, mesmo ao lado de uma ravina, de uma queda de centenas de metros.
No vale eram também visíveis as cabras a percorrer as escarpas. Lá no alto da montanha, acima dos templos e das casas esculpidas nas rochas.
Após a subida também se encontravam beduínos nos terrenos mais amplos, com vegetação rasteira.
Alguns vigiavam animais. Famílias vagueavam à procura de turistas embora não fossem intrusivos.
Tudo se fazia com calma.

Um dos locais mais procurados era o bar improvisado com bebidas. Não tinha muita sombra. Uma árvore e uma pequena zona coberta. Com bancos.
Deu para refrescar e relaxar com vista para o Mosteiro.
É o maior monumento de Petra.
Tem 50 metros de altura e 45 de largura.
Parecia ainda maior porque está incrustado numa montanha. Nada mais em volta.
Um largo de areia vermelha em frente e depois a fachada parecida com a do Tesouro. Colunas e em em cima a coroa real. Têm uma história parecida. Nem tesouro, nem mosteiro.
A origem do nome al-Deir (mosteiro) é desconhecida. Na verdade, o edifício terá servido como túmulo de um dos reis nabateus.
O mosteiro tem uma única entrada.
Quando o visitei não era permitida aceder ao interior.
Via-se um extenso salão vazio.
Apenas as múltiplas variações da cor rosa e fortes tons amarelos.
Deu para passear na zona envolvente.
Um dos melhores planos para fotografar foi de um dos lados com o vale de Petra no horizonte.

A viagem não terminou aqui. Ainda faltava ir ao Fim do Mundo.
É um miradouro e ficava atrás do bar.
Um pequeno passeio a pé levou-nos até lá, ao alto de uma zona montanhosa.
Era final da tarde. A luz ainda era intensa mas já tinha os tons avermelhados.
O reflexo nas montanhas, também elas em tom avermelhado, tornavam a paisagem ainda mais sublime, com uma sucessão de cumes de montanhas. De braços de rocha que se estendem o mais que podem e que terminam de forma arredondada.
No outro alto, num outro braço da montanha, estava uma cabana. Era o Fim do Mundo, com duas bandeiras da Jordânia.
A cabana era de um beduíno que vendia artesanato aos turistas. Protegia do vento e servia de ponto de referência para sabermos onde fica o Fim do Mundo. Se for assim, é espectacular…
Petra tinha o estatuto de Unesco World Heritage. Em 2007 foi escolhida como uma das sete maravilhas do mundo.
Teve o meu voto.
Após o destaque neste concurso, aumentou significativamente o número de visitantes.
Quase 200 anos depois de ser dada a conhecer ao ocidente pelo explorador suíço Johann Ludwig Burckhardt, Petra ganhou imensa fama.
Que o proveito seja proporcional, porque merece.
É fascinante.
Infútil:
Bilheteira e horários tem informação aqui.
É fundamental o abastecimento de água.
A viagem é demorada e pode ser cansativa. Com o sol forte é ainda mais desgastante.
No início do percurso havia pequenos pontos de venda de artesanato e água. Depois, só mesmo no final do vale é que havia um restaurante.
Para quem tem problemas de locomoção, os beduínos ofereciam a possibilidade de fazer a visita de cavalo ou de camelo.
Havia dezenas. Para lá, para cá…. Velhos e novos a perguntar se desejávamos transporte.
Também o Siq podia ser feito com este tipo de transporte.
Convém visitar Petra logo pela manhã e ficar até ao final da tarde.
Petra fica a cerca de 3h de distância de carro de Amã. Pela via rápida que atravessa o deserto. Há um outro caminho, o que eu fiz, e que é bem mais interessante, pela paisagem da Kings’ Highway mas demora cerca de 5h.
O mais interessante é combinar a visita com outro destino. Por exemplo, Wadi Rum fica a cerca de uma hora de distância.
Há agências que fazem um programa de ida e volta a partir de Amã.
Mais informações aqui
Ver ainda:
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Jordânia – InfÚtil

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